19.8.17

Um Útero é do Tamanho de um Punho


trecho de "uma serpente com a boca cheia de colgate". foto: @tarcísiolarapuiati 


Não sou fã de poesias. Talvez por não conseguir entender de imediato o que as autoras e autores querem falar e tenha uma preferência maior pela facilidade rítmica de textos como crônicas e romances...

A complexidade na interpretação me dá uma sensação de retardatária rsrs. Dependendo do poema, preciso mastigar muito, ler e reler, para conseguir entender.

Claro que nem todos são assim. Difíceis de inferir. Ou a facilidade na leitura acontece quando estamos vivendo circunstâncias equivalentes ao texto. Pode ser. De modo geral, não é algo que costumo consumir. Entretanto, li Um Útero é do Tamanho de um Punho. 

O livro de poesias de Angélica Freitas me deu alguns socos no estômago. Rolou identificação instantânea por motivos óbvios: ela escreveu sobre a condição de ser mulher nesse mundo. Que apesar de sermos muitas, ainda somos tratadas como minorias.

Um útero, a gente sabe, é difícil de carregar. Em raras exceções ele é motivo de orgulho. Isso ocorre por vivermos num mundo machista e patriarcal. No Brasil, por exemplo, uma mulher é assassinada a cada 90 minutos e no texto “Uma Canção Popular (Séc. XIX-XIX)”, a autora apresenta um tipo de historiografia dessa nossa condição na sociedade.

A identificação também ocorre por causa da arte. A capa contém costuras, remendos e rasgos. Puts! Como nós, mulheres, temos rasgos... Na pele ou na alma. Curadas ou não.

Eu mesma, nesse exato momento, estou em processo de cicatrização. Aprendendo a fechar algumas portas de uma vez por todas - inclusive batendo-as com força. O motivo? Para começar a realizar a tarefa mais importante da minha vida: me recuperar. Voltar ao meu estado normal, me perdoar, me acolher.

Normalmente somos muito duras com as nossas falhas. Mas elas servem para aprendermos, viu? Para crescermos como pessoas. E se você também se sente assim, me ouça: não seja tão má com você.




As artes que compõe o livro são fotografias do trabalho "Indícios, Vestígios e Outros" da artista plástica Anna Maria Maiolino.

Eu gostei do livro. Alguns textos, sim, eu tive que reler rsrs... Mas abaixo tem trechinhos dos que mais prezei.

*uma canção popular (séc. XIX- XX):

uma mulher incomoda
é interditada
levada para o depósito
das mulheres que incomodam

loucas louquinhas
tantãs da cabeça
ataduras banhos frios
descargas elétricas

são porcas permanentes
mas como descobrem os maridos
enriquecidos subitamente
as porcas loucas trancafiadas
são muito convenientes

interna, enterra

(...)


a mulher pensa*

a mulher pensa com o coração
a mulher pensa de outra maneira
a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante
a mulher pensa será em compras talvez
a mulher pensa por metáforas
a mulher pensa sobre sexo
a mulher pensa mais em sexo
a mulher pensa: se fizer isso com ele, vai achar que faço com todos
a mulher pensa muito antes de fazer besteira
a mulher pensa em engravidar
a mulher pensa que pode se dedicar integralmente à carreira
a mulher pensa nisto, antes de engravidar
a mulher pensa imediatamente que pode estar grávida
a mulher pensa mais rápido, porém o homem não acredita
a mulher pensa que sabe sobre homens
a mulher pensa que deve ser uma “supermãe” perfeita
a mulher pensa primeiro nos outros
a mulher pensa em roupas, crianças, viagens, passeios
a mulher pensa não só na roupa, mas no cabelo, na maquiagem
a mulher pensa no que poderia ter acontecido
a mulher pensa que a culpa foi dela
a mulher pensa em tudo isso
a mulher pensa emocionalmente



a mulher é uma construção

a mulher é uma construção
deve ser
a mulher basicamente é pra ser
um conjunto habitacional
tudo igual
tudo rebocado
só muda a cor
particularmente sou uma mulher
de tijolos à vista
nas reuniões sociais tendo a ser
a mais mal vestida

digo que sou jornalista
(a mulher é uma construção
com buracos demais

vaza

a revista nova é o ministério
dos assuntos cloacais
perdão
não se fala em merda na revista nova)

(...)


*texto do capítulo: 3 poemas com o auxilio do google

obs: esse livro faz parte do projeto Lendo Mulheres

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