10.3.17

Sobre limite: como acolher alguém que nos machuca?

A matéria de capa da revista Vida Simples desse mês, edição 181, foi um tapa de luva em mim. O tema é Saiba Acolher. Apesar de a revista ter uma versão digital, ela é paga. E como nem todo mundo tem acesso, vou tentar resumir pra gente chegar ao ponto que eu quero, tá bom?



A matéria, escrita com muita serenidade, por Liliane Alves e ilustrada por Paola Viveiros, apresenta a história de Dindim, um pinguim que foi encontrado “exausto, faminto e coberto de óleo”, que retorna todos os anos do sul para visitar o amigo pescador, João, uma pessoa que deu ao pinguim amor e acolhimento.

Carinho, proteção, segurança e alimento é tudo que significa para ele. Já alegria de ter salvo uma vida é a felicidade de João. Um recebe e o outro dá, mas ambos estão igualmente felizes. 

A partir disso, a Liliane, nos traça uma rota dos passos necessários (autoacolhimento, sair do próprio umbigo, rejeição, desejo de ser acolhido...) para nos tornarmos pessoas mais acolhedoras, compreensivas e generosas.

Começa falando sobre a necessidade, antes de qualquer atitude, de se aceitar integralmente. Aceitar as falhas e nossas características negativas, aquelas que só temos coragem de confessar a nós mesmas, trancadas num quarto escuro sem janelas para não correr o risco de alguém ouvir. Perceber nossas imperfeições e máculas para jogarmos luz nelas. O autoacolhimento é o primeiro exercício.

Essa consciência de nós mesmas nos torna pessoas mais tolerantes e compreensivas. Pois, saber os nossos limites faz a gente ter mais consideração com os limites dos outros, além de ser mais empática com as emoções, reações e comportamentos diferentes do nosso. Inclusive com os que não aprovamos. ~ Eis aí o tapa ~


Recentemente tenho convivido com algumas pessoas que tem uma compreensão diferente da minha sobre o mundo. Temos vários interesses similares, mas nos pontos que diferimos tornaram-se caóticos para mim. Vou explicar.

Eu fico tão magoada, triste, confusa, chateada para não dizer com ódio do no coração todas as vezes que essa pessoa (que não vou falar o nome por motivos de: talvez ela leia e não quero mais confusão) vem me falar algo sobre identidade negra, discriminação e racismo, usando termos que revelam sua propensão racista. Ela não faz isso de maneira consciente, com certeza, mas comete microagressões que tem um efeito muito negativo sobre mim. Sou extremante afetada e sofro de maneira desmedida quando acontece. 

Para saber mais sobre Microagressões leia o texto de Tom Stafford The true impact of tiny microaggressions, (aqui tem uma tradução) mas a seguinte frase define bem para mim:

Microagressões: um milhão de pequenos corte se somam em uma grande ferida

Ler que preciso conhecer e entender minhas falhas e limites me fez refletir sobre as falhas e limites dessa pessoa que me causa tanto transtorno. Essa pessoa ainda não compreende que alguns termos, comentários e opiniões causam dor e são violentos. Até porque, a ideologia racista e misógina da nossa sociedade funciona assim: não deixa que percebamos seu processo de neutralização de sentidos.


Não estou dizendo que não é para se impor quando necessário. Faça sempre que for imprescindível. Até para demarcar uma posição e mostrar para a outra pessoa que a opinião dela não é soberana. Que ela não reina sozinha no campo das ideias. Sobretudo quando o assunto for racismo, para que não haja propagação de convicções que machucam.

É preciso se impor para deixar evidente que não é ~ ok ~ falar ou agir de maneira racista porque vai ficar tudo bem. Não vai. Mas a gente tem que fazer isso lembrando do limite da outra pessoa. Entender até onde aquela pessoa consegue ir naquele momento.

Eu sou negra. Mas a minha pele é mais clara. Isso me trouxe muito privilégios e tenho total consciência disso. Porém, tenho traços que não me fizeram bem e me fazem ser atingida com um tipo muito específico de racismo: o da mulata.

Para alcançar a minha trajetória, é necessário compreender que, no Brasil, um mulher negra, mesmo as que possuem a tonalidade mais clara como eu, carrega cerca de 350 anos de história e ancestralidade na pele, no cabelo, na boca, no nariz...

E, apesar do meu entendimento sobre mim e sobre minha condição na sociedade, por viver diariamente sob o pensamento racista e tolhedor dos espaços, eu mesma não tive essa compreensão durante muitos anos. Alisei meus cabelos e me odiei durante muito tempo. Aceitá-los hoje, crespos e volumoso, é uma forma de afirmar a minha identidade. Mas demorei para entender isso.

Talvez, esse entendimento também seja difícil de ser alcançado por outra pessoa. Seja por que ela não tem proximidade com essa realidade. Seja porque romantiza as relações inter-raciais no Brasil e acredita piamente que vivemos num país miscigenado, sem distinção de raça ou cor.

Daí você me pegunta..

Então Bruna, o que isso tem a ver com acolhimento?

Lembra daquela brincadeira com as mãos Pedra, Papel e Tesoura? Onde duas crianças escolhem entre três símbolos: pedra (mão fechada), tesoura (dedos indicador e médio formando um "v") e papel (mão aberta)?

A pedra simboliza o rígido. Porém, a pedra, por mais forte e dura que seja, perde para o papel. Por quê? por que o papel abraça a pedra. Duas pedras iriam se chocar e quebrariam. Talvez, uma mais do que a outra, mas, ainda assim, as duas teriam perdas. O papel é maleável. Envolve a pedra num abraço.

E mais uma vez me questionando...

Ah, Bruna, você quer que eu abrace quem tá me machucando?

Sinceramente, não. Eu não abraçaria hahaha. Não literalmente. O abraço que estou falando é entender e ver as limitações das outras pessoas. Inclusive daquela que te machuca e não o faz de proposito.

Acolher alguém que te machuca pode ser feito dessa forma: posicionar-se quando a vida nos pede, mas entender que cada um tem seu tempo de compreender a si e ao outro. A ideia é fazer a outra pessoa tomar consciência do que está fazendo e aprender com a própria experiência. Fazer ela perceber o erro e se sentir errada. Praticar a comunicação não-violenta. Assim, talvez, essa pessoa tome um outro direcionamento e mude de postura sobre o assunto ou, pelo menos, tome consciência do quanto está machucando.


O que você acha? Faz sentido o que estou falando?
Ou é melhor dar um Kame Hame Ha na pessoa e seguir a vida com raiva?
Conta aqui nos comentários.

beijo,

Postar um comentário

Copyright © Ensaio de asas
Design by Bruna Sarga