4.9.16

Meu cabelo é cacheado! Não é ruim, duro, de Bombril ou sujo


"Se você pegar piolho... nossa não quero nem imaginar como seria difícil de tirar desse cabelo", falou para mim, na semana passada, uma moça que também esperava a vez dela para fazer depilação no salão de beleza perto da minha casa. 

Retruquei dizendo que caso pegasse piolho, teria o mesmo trabalho que ela - moça branca com cabelo liso, talvez alisado quimicamente, com certeza pintado de loiro -, para removê-los. Iria passar o remédio para matar pilho e finalizar com pente fino. Do mesmo jeito que ela, precisaria dividir os cabelos em mechas para não quebrar o cabelo.

É louco perceber que algumas coisas tão óbvias pra mim, não são tão óbvias assim para outras pessoas: racismo.

O que ela falou, expressões simples que aparentemente não parecem ser ofensivas, são visivelmente racismo. Mas pra ela, não. A moça ficou incomodada com o volume do meu cabelo cacheado que no dia estava bem volumoso, diferente dessa foto da postagem rsrs. Mas o que levou a esse incomodo?

Durante a nossa conversa, falei "meu cabelo é uma característica normal de uma pessoa negra" e ela disse na lata "mas você não é negra! É morena!". E com essa reação, também ficou óbvio que havia uma preocupação em dizer que alguém - eu -, era negra. Como se chamar uma pessoa de negra fosse algo ofensivo, beirando o xingamento. Daí a opção é embranquecer a pessoa – chamando-a de “morena” ou “mulata”, acreditando ser menos agressivo.

Olha, não existe justificativa para negar que alguém é negra. Essa palavra não diminui ninguém. Na verdade, a palavra negra/o exprime, além dos contextos históricos, que a pessoa tem uma identidade e faz parte de um grupo social. Ser negra não é apenas a cor da pele, tá mais ligado a identificação cultural. É uma questão política e de resistência.

A negação do nosso fenótipo, quando vão se referir aos nossos cabelos Afro ou a cor da pele, não apaga apenas a nossa cor, mas o longo processo que pessoas como eu – que desconstruiu toda a inferiorização que sentia por ser negra –,  passaram para conseguir se reconciliar com a nossa identidade. Dilui a concepção de coletivo. E é isso que a sociedade branca, racista e misógina quer: negativar a figura negra para destruir, simbolicamente, a nossa ancestralidade. Cruel, né? 

Mas muitas pessoas não tem consciência disso. 

Quando criança, recebi vários apelidos – “cabelo ruim”, “cabelo de Bombril”, “cabelo duro” – que me faziam chorar e me esconder dentro de casa ou durante o recreio da escola. A solução dada a mim, ainda com 7 anos, foi o alisamento que, vamos combinar, para uma criança, é uma rotina capilar opressora. O mais torpe é perceber que esse mesmo racismo, praticado pelos colegas de infância, se perpetua nas universidades, ambientes de trabalho, ruas, nos salões de beleza... 

Incrível como as pessoas não percebem que estão sendo racistas. Digo isso por saber que muitas vezes não é de proposito. Somos ensinados desde criança a apontar o dedo na cara do coleguinha e escancarar as diferenças. E como ser negra, desde sempre, foi explicitamente negativada pela sociedade, apontar o dendo e escancarar as diferenças tem que ser em cima de algo "vergonhoso" para o outro.

Hoje, eu não aliso mais o cabelo. O que antes era motivo de vergonha, agora é simbolo. E representa todo o meu orgulho. Ele é cacheado, volumoso e lindo. Cresceu, assim como a minha consciência. E percebi que fiquei mais negra, principalmente por causa da quantidade de olhares tortos. Meu cabelo é cacheado! Não ruim, duro, de Bombril ou sujo. Posso pegar piolho? Claro que posso. Assim como a cabeça de qualquer outra pessoa. Inclusive cabeças que não tem o cabelo tão maravilhoso como o meu.

xxx

Empatia e diálogo é uma categoria sobre coisas que incomodam muita gente, mas que é necessário conversarmos.

10 comentários

  1. eu até poderia dizer que isso acaba acontecendo por conta dessa mania das pessoas de saírem falando o que vem em mente sem nem se darem o trabalho de pensarem um pouquinho antes. mas a verdade é que o racismo foi tão velado a ponto das pessoas realmente acreditarem que não são racistas. ai acham super normal sair falando essas coisas. isso quando não respondem com ~racista eu? que absurdo! tenho até amigos negros. (que vontade de sacudir as pessoas nessa hora e ver se as ideias dela se colocam no lugar).

    nessas horas eu vejo que o que nos resta é ir desconstruindo esse pré conceito e mostrando que "ei, racismo tá ai sim! tá até no jeito que tu olha alguém" e mostrando que "não, não é só um comentário! não, não é só sua opinião". acho que até eu, na minha ignorância de quem pode no máximo imaginar o que é passar por isso, posso e devo contribuir com esse processo de desconstrução. é o mínimo né?

    e ei, cê é linda por inteiro sim, do jeitin que cê é! ♥

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    1. Bebemos machismo, preconceito e racismo nas mamadeiras. É difícil lutar contra isso quando nós mesmos também, sem perceber, praticamos ofensas semelhantes. Mas é um exercício diário, sabe? A cada gota de consciência que adquirimos deixa o processo mais dinâmico. Eu aprendo "tal coisa" e apresento para N pessoas, dentre elas, duas também aprendem e passa pra frente. Daí forma uma corrente que só tende a ganhar força. Estamos longe do desejado? Estamos. Mas a gente chega lá.

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  2. Oiii Bruna!!!

    Gostei muito do seu texto e ele expressa a verdade.
    Tive um comentário desses na faculdade nesses dias, mas resolvi nem retrucar nem nada, e olha que a pessoa ainda disse "o seu cabelo até que forma cachinhos ainda". Eu só pensei "What????". É difícil pensa que isso ainda acontece, mas que não deveria. É espetacular.
    Em contrapartida, tenho amigos que dizem "amo o seu cabelo", "nossa, ele está muito lindo", "se você alisar eu te bato", "acho o seu cabelo maravilhoso, queria ter um assim também".
    Amo o meu cabelo e devemos nos orgulhar de quem somos!

    Beijos! Blog

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    1. Sei que cada um tem uma forma de reagir, mas te convido a retrucar todas as vezes que você se sentir ofendida e desrespeitada. Não falar, deixar pra lá, é tudo que eles/as - racistas, preconceituosos - querem.

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  3. OBRIGADA. Eu tenho ficado cada vez mais mal com essa história de cabelo ruim e cabelo bom, não aguento mais ficar sem corrigir e manda um ISSO NÃO EXISTE! Nós - humanidade - muitas vezes repetimos coisas racistas, ofensivas e crueis sem nem parar pra pensar no que significam mesmo.

    E seu cabelo uma corralinda maravilhosa ♥

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    1. Eu que agradeço. Pela atenção, o carinho e a vontade de ouvir e entender o outro. Empatia. Acho que essa é a chave para nós, humanidade.

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  4. Bruna, sua linda, que post! ♥ é incrível o quanto as pessoas falam coisas sem se colocar no lugar do outro, né? E é incrível quanto falar essas coisas absurdas era levado como ~normal até pouco tempo atrás, onde pouco se falava sobre respeitar as diferenças dos outros (seja de cor de pele, cabelo, orientação sexual e enfim...).

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  5. Seu cabelo é maravilhoso <3
    Eu tenho desconstruído muitos preconceitos em relação a várias coisas que eu tinha, principalmente algumas ideias machistas. E, como você falou, muitas vezes aquilo está tão internalizado em nós mesmos como algo normal, que nem nos damos conta.
    Eu tinha cabelo liso antes e ele foi ondulando com o tempo. E durante anos eu fiquei fazendo chapinha, até que resolvi me libertar ano passado e foi a melhor coisa que fiz :D

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  6. Também fico sem entender como existem pessoas sem empatia e consciência.
    Seu cabelo é lindo, maravilhoso! Não deixe que ninguém -nunca- te prove ou tente convencer o contrário disso.

    Um beijo
    www.nossorelicario.com

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