10.6.16

Nunca reclame do que você permite



Você sabe o que significa influência dos custos perdidos? Trata-se de uma tendência de continuar investindo tempo, energia, dinheiro, lagrimas, saúde física/ mental, ou ambos, e o que tivermos em propostas malsucedidas só por causa do sentimento de "mas já gastamos tudo isso” e/ou "talvez, se continuarmos forçando a barra conseguiremos ter algum retorno”.

Agora tá explicado o fato de continuarmos no cinema mesmo o filme sendo horrível. Não dá pra sair na metade depois de pagarmos pelos ingressos. E nem vou mencionar relacionamentos.... Deixa quieto, né? O resultado é um loop sem fim, pois conforme investimos em algo, seja o que for, mais difícil é abrir mão dele.

Tudo bem, você não é a única. Normal não querer jogar fora o que foi investido - ou melhor, desperdiçado - mesmo tendo consciência da escolha ruim.  Mas se você continuar por esse caminho, insistindo no que não tem jeito, vai perder ainda mais. Que inteligência há nisso?

A situação fica ainda mais complicada pelo fato de sermos punidos quando dizemos não e elogiados ou recompensados quando dizemos sim. O primeiro, habituado a soar estranho na hora em que é dito; o segundo é celebrado. Isso dificulta bastante na hora de estabelecer limites.

No entanto, nos nossos relacionamentos, sempre haverá pessoas que abusem quando o assunto é exigir o nosso tempo. Fazem com que os problemas delas se tornem os nossos, sugam nossa energia em proveito próprio, nos distraem do nosso proposito e, se permitirmos, nos impede de dedicar o nível máximo de produtividade naquilo que desejamos de fato. E como é difícil dizer não para os mais próximos. Afinal, não queremos magoar ninguém.


Certa vez, uma enfermeira australiana chamada Bronnie Ware, que cuidava de pacientes em estágio terminal, resolveu registrar os arrependimentos que mais ouvia. No topo da lista estava: “Queria ter tido coragem de levar uma vida significativa para mim, não a vida que os outros esperavam que eu levasse"
                                                                           - Essencialismo, de Greg McKeown pág. 18


ENTÃO, O QUE FAZER NESSAS SITUAÇÕES?



Recentemente, durante os trabalhos do final do período da universidade, aceitei fazer uma das atividades com uma colega de classe que honestamente eu sabia que era irresponsável, além de ser totalmente desfocada. Quando ela me chamou para fazemos o trabalho juntas, falei sim sem pensar. É difícil dizer não para uma amiga. 

Sobre o trabalho, não podia permitir que fosse feito de qualquer maneira. Além de se tratar de uma atividade muito importante para média, ter rendimento acadêmico ruim me ocasionaria a perda da bolsa de estudos que me empenhei muito para conseguir. Seria uma tragédia.

Durante a produção do trabalho, fiz considerável esforço porque tinha que dar conta da minha parte e da parte dela. Quando especificava um exercício simples para ela realizar, era feito sem atenção ou sem o mínimo de cuidado. Tentei ensiná-la, mas ainda assim, ela continuava com uma atitude negligente. Eu tinha que parar a minha função, adiar o progresso do trabalho, para corrigir o que ela tinha feito. 

Minha vida virou um caos. O prazo de entrega estava finalizando e ainda não tínhamos iniciado o básico. A minha decisão precipitada estava me causando muito mal, gerando tristeza, estresse, angustia etc. E tudo isso só estava ocorrendo porque eu permiti. Me comprometi em fazer a atividade com a minha amiga, mesmo sabendo como ela era e pelo medo de magoá-la se eu tivesse dito não.

Depois de sofrer muito para tomar uma decisão - pela lógica, eu poderia continuar o trabalho sozinha, mas emocionalmente essa opção não existia -, percebi que ao sacrificar meu poder de escolha, acabei escolhendo – de forma errada. Ao me recusar a não continuar o trabalho sem ela, eu optei por permanecer naquela situação terrível. Uma decisão tomada por omissão. Minha bolsa de estudos dependia disso. Sendo que, aparentemente, ela não se importava em tirar nota baixa na atividade. Pelo menos, não se esforçava para conseguir o contrário.

Foi quando a chamei para falar que, a partir daquele momento, eu faria o trabalho sozinha. Claro, ela ficou chateada comigo. Porém, consegui desenvolver a atividade com mais calma, eficiência e rapidez. E pode parecer egoismo da minha parte, mas se você pensa assim, entenda uma coisa:

É claro que devemos servir as pessoas, amá-las e fazer a diferença na vida delas. Mas quando os outros fazem com que os problemas deles se tornem nossos, não ajudamos em nada. Ao assumirmos os problemas deles, lhes tiramos a capacidade de resolvê-los.
                                                                                                            Greg McKeown


Por isso, em situações semelhantes, é necessário admitir - para si, para os outros, para o mundo - que foi um erro se comprometer com algo fadado ao fracasso, e depois abrir mão inteiramente de gastar ainda mais tempo, dinheiro ou energia. Caso contrário, você continuará rodando em círculos à toa. Como declarou o humorista Josh Billings, “metade dos problemas da vida decorre de dizer sim depressa demais e não dizer não cedo o bastante”.

Ter finalmente dito não, me fez recuperar a qualidade do meu tempo concentrando meus esforços para realizar um trabalho bem feito. Além de dar um imenso impulso rumo à realização do que era importante, esse cenário me ajudou a valorizar a minha opinião sobre fazer escolhas. Sinceramente, passo para longe qualquer coisa, pessoa ou situação que sugue minha energia de forma negativa. É um exercício diário, sabe? Lembrar que tem decisões que são unicamente minhas, mas quanto mais esse raciocínio entrar no íntimo, mais torna-se libertador. 

Experimente se sentir mais leve e feliz se descomprometendo do que te faz mal. Depois me conta se funcionou pra você, combinado?


Ah, sobre minha nota no trabalho... 9,0



fotos de Tomasz Bazylinski

5 comentários

  1. Menina! Isso aconteceu comigo quinta feira na aula. Uma menina conhecida minha pediu pra fazer trabalho comigo e eu aceitei... mesmo sabendo que na última vez que fizemos trabalhos juntas, eu fiz tudo sozinha porque ela não estava ligando nem um pouco pro trabalho. E sabe o que é pior? Ela é bolsista, eu sou FIES, então se ela repetir uma matéria, mesmo tendo limite pra quantidade que ela pode repetir (já repetiu algumas) ela não paga o negócio de novo, enquanto eu tenho um limite de dinheiro que posso financiar. Se ficar repetindo matéria, depois vai ter que sair do meu bolso, e não tenho condições nenhuma. Acabei aceitando porque eu não sei falar não, todo mundo que me conhece sabe disso e se aproveita, porque mesmo não querendo eu acabo concordando. Sabe quando você aceita fazer um trabalho que já sabe que vai te dar dor de cabeça? Tô assim desde quinta, e o pior: se você fala não pra pessoa, você sai como egoísta, antipática e narcisista, porque todo mundo age como se você pensasse que os outros não estão no seu nível ou coisa assim. Complicado essa vida, viu?

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    1. Mari, não sei o que os outros ficaram pesando sobre mim. A minha amiga, por exemplo, só fala o necessário comigo depois que eu disse não. Mas não me arrependi em NADA. Na hora que fiz, foi libertador.

      Faça uma pergunta sobre o seu trabalho, seu tempo, sua calma, sua paz, sua energia.... Vale a pena continuar desperdiçando tudo isso para continuar sendo "a legal" para pessoas que não são legais com você?

      Não acho que você é egoísta, antipática e narcisista, assim como eu não sou.

      A princípio, as pessoas podem até ficar chateadas e tudo mais, porém depois elas vão respeitar a nossas decisões entendendo que não estamos brincando e que não aceitamos a desconsideração do outro.

      Quem está errado nessa história e a pessoa que não aceita suas responsabilidades e pior, não sofre as consequências que necessita para mudar de atitude com o outro. Isso porque sempre vai ter alguém para passar a mão na cabeça - nesse momento, você - e por isso ela não vai aprender a ter responsabilidade nunca.

      Primeiro, você não está ajudando essa pessoa a evoluir.
      Segundo, está gastando sua energia e tudo atribulado a ela por alguém que claramente não faria o mesmo por você.
      Terceiro, não permita que isso aconteça, caso contrário a culpa total do estresse, dor de cabeça etc. é sua. Você permitiu. Entende?

      Fale com ela, diga como se sente, fale sobre o trabalho e como deve ser dividido. Que ela precisa fazer a parte dela. E se ela não fizer, você com certeza vai fazer, mas não vai colocar o nome dela no trabalho. Já que você fez tudo sozinha.

      Seja honesta com ela, com x professorx - que acha que as duas alunas estão aprendendo nessa atividade -, e acima de tudo, com você mesma.
      Não tenha medo de dizer não. Essa palavra é essencial para vivermos bem.

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  2. Ai Bruna,

    E como que isso acontece, não é? E às vezes eu até penso que vai ser diferente se for de uma outra maneira.
    Isso tem acontecido com uma certa frequência pra mim... Mas com relação à pessoas diferentes. Até que encontrei com um outro grupo que faz tudo como manda o figurino. Está sendo uma maravilha trabalhar com eles.
    E isso não é só na vida acadêmica né, tem em todos os lugares. Agora é saber lhe dar com tudo certinho.

    Abraços!

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  3. Já passei muito por isso, já fiz muito trabalho só porque me comprometi a realizá-lo com pessoas irresponsáveis.Hoje em dia levo em consideração muitas coisas.

    Saber dizer não é essencial...Concordo plenamente com a frase Josh. Dizer sim o tempo inteiro faz mal, faz mal pra nós e faz pra outra pessoa porque cria um círculo vicioso.O outro nunca saberá que tem de melhorar se alguém não dizer claramente aonde ele está errado.

    Ótimo texto!

    Beijos

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  4. Que texto! Você disse exatamente tudo o que eu precisava ouvir. Não somente no âmbito escolar mas em tudo na vida. Dizer não às vezes é preciso. Nossa saúde mental agradece :)

    Beijo :**
    www.keepcamy.com

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