5.6.16

Como fazer olhos preguiçosos enxergarem




Existe uma cidade, na verdade, trata-se de uma ilha do arquipélago das Ilhas Pelágias, localizada no Mar Mediterrâneo: Lampedusa. A bucólica ilha de pescadores tornou-se uma das portas de entrada para milhares de pessoas que julgam arriscar a vida em embarcações superlotadas, sem o mínimo de segurança, melhor do que as circunstâncias em que eles vivem em seus países.

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2016, o documentário Fogo no Mar (Fuocoammare), de Gianfranco Rosi, expõe o drama vivido por refugiados de guerra vindos, na grande maioria, da África e do Oriente Médio. 

A concepção do filme parece difícil de digerir. Mas Rosi cria uma narração atrativa, quase que afável, ao colocar, em paralelo, cenas do pacato cotidiano de alguns cidadãos locais.

PERSONAGENS
Com foco evidente no menino Samuele, de 12 anos, filho de pescador, ele é – com suas brincadeiras, falas eloquentes e gestos expressivos -, de certa forma, o alívio cômico do documentário. Especialmente ao saímos de uma cena pungente de resgate de homens e mulheres esfarrapados, debilitados pela fome, totalmente desidratados, alguns inconscientes.

Se de um lado temos um foco no menino com sua família de pescadores. Sob outra perspectiva vemos os refugiados, exibidos como uma massa indistinta. Não há depoimentos ou histórias individuais, não sabemos seus nomes, o que passaram, quem deixaram.... Temos apenas as emoções expostas. Uma série de medo, tristeza, alívio e incerteza quanto ao futuro.

Os dois cenários são quase desconexos. Exceto pelo médico Pietro Bartolo, único médico da ilha, sobre quem pesa a responsabilidade de cuidar dos refugiados, além de responder pelo destino dos corpos dos mortos. É Bartolo quem descreve as condições que essas pessoas chegam a ilha e, entre outras questões, mostra a dificuldade de acolhê-los.

FOGO NO MAR
O título do filme é uma relação direta as consequências das guerras vistas pelos moradores de Lampedusa. Numa primeira passagem, a avó de Samuele conta como eles temiam ir ao mar de noite durante a Segunda Guerra Mundial. 

Os navios militares lançavam foguetes que iluminavam o mar deixando-o vermelho com a impressão de que havia fogo nele. Então, durante um relato de Bartolo, em que vemos um homem deitado com queimaduras graves no corpo, é estabelecido o paralelo. Compreendemos o título do filme aplicado a esta situação. As queimaduras são causadas pelo combustível expelido pelo motor a diesel nas roupas dos refugiados.

OLHOS QUE NÃO QUEREM VER     ***Alerta de spoilers!***

Em 2015, revela o relatório do Observatório de Situações de Deslocamento Interno, foi registrado um número recorde de 40 milhões de refugiados de guerra. Isso representa o dobro de refugiados do mundo. Dentro desse contexto, muitas pessoas se debatem entre a culpa de continuar na indiferença, sem “enxergar”, e o desejo de querer ajudar sem poder. Equivalente ao problema no olho direito de Samuele, chamado de olho preguiçoso. 

Enquanto o garoto se empenhar para enxergar completamente, do mesmo modo, precisamos nos esforçar para olhar as imagens impressionantes feitas pela câmera de Rosi.

Alguns closes são difíceis de encarar: o momento em que os refugiados estão sendo catalogados com fotos e números, um dos africanos olha diretamente para câmera, seu rosto está enquadrado, sua dor chega a ser tangível, ninguém consegue encará-lo por muito tempo. Em outra cena, um homem com uma ferida no olho chora lágrimas de sangue – os mais frios conseguem ver, não foi o meu caso -, logo depois, noutra passagem, uma mulher fala algo para outra, não compreendemos o que ela diz, mas deduzimos no momento em que ela começa a chorar.

Há outras cenas com grande peso no documentário. Um grupo de africanos fala de forma espontânea o que fizeram para sobreviver. Eles contam, durante um tipo de oração, que escaparam de bombardeios na Nigéria e fugiram pelo deserto do Saara. Muitos morreram de sede, fome e exaustão. Quem sobreviveu, entrou pela Líbia, onde foram presos, torturados e mais tantos outros morreram. 90 sobreviventes conseguiram subir num barco precário com destino a Lampedusa. Dos 90, apenas 30 desembarcaram na ilha.

No fim, não somos poupados. Enxergamos com clareza as imagens do porão de um destes barcos, abarrotado de cadáveres.



2 comentários

  1. Aii, vou evitar os spoilers, mas fiquei curiosa, ahahaha.

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    1. hahahah os spoilers começam em OLHOS QUE NÃO QUEREM VER. ;)

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