20.7.15

A invenção das Asas, de Sue Monk Kidd

Faz tempo que não compartilho nenhuma leitura com você. Absurdo, isso! Para me redimir trouxe uma resenha de um livro ótimo, baseado numa história real.



A invenção das Asas, de Sue Monk Kidd, nos coloca diante da atrocidade e violência que os escravos eram submetidos. Um horror, por incrível que pareça, não tão distante da nossa realidade, mas com um caráter estrutural diferente da de 1803 - época em que a história se passa. Ou você já se esqueceu do rapaz que foi preso nu ao poste com uma trava de bicicleta, teve a orelha cortada e possuía marcas de espancamento no corpo, no Rio de Janeiro?

Resultado de uma abolição incompleta, a complexa cena, mostra que ainda somos adeptos a torturas e destruição da dignidade alheia. Mesmo após 125 anos da Lei Áurea. Mas não vou me estender sobre o quadro social brasileiro. Vamos ao livro...


O SONHO

É verdade, o livro aborda a violência, mas também a força que é alimentada pelo desejo de liberdade. 

A história começa quando Sarah Grimké, filha do juiz John Grimké - patriota sulista, dono de escravos, aristocrata - sonha em ser advogada e acabar com a escravidão. E Hetty "Encrenca" - o senhor Grimké lhe deu o nome de Hetty, mas seu nome de berço é Encrenca -, negra, escrava, que pertence a família Grimké, sonha em ser livre. Porém as duas vão descobrir que seus sonhos parecem impossíveis no início do século XIX.
Sarah demonstra repulsa pela escravidão desde os 4 anos de idade. Ao presenciar o açoitamento de um escravo, inicia um problema na sua articulação verbal, gaguejando todas as vezes que se sente vulnerável. 

Uma garota com o intelecto insaciável e consciente da inferioridade de sua própria educação, lia os livros da vasta coleção do seu pai - livros de direito, filosofia, história, teologia, poesia, geografia e cultura clássica -, na biblioteca onde era oficialmente proibida de entrar. Devorava um livro atrás do outro debaixo do retrato de George Washington. O Juiz Grimké fingia não ver. 

O sonho de ser jurista surgiu quando numa discussão entre seus irmãos e o pai, Sarah argumenta de forma surpreendente e John Grimké afirma "Se Sarah fosse um menino, seria o maior jurista da Carolina do Sul". Porém, ela sabia que seria difícil. Afinal, para uma mulher no século XIX, nada existia além da esfera doméstica.

No aniversário de 11 anos, os pais de Sarah, deram para ela Encrenca como presente.


PÁSSAROS NEGROS 

A mãe de Encrenca contava histórias de um tempo, na África, em que a pessoas podiam voar. Voavam como pássaros negros, mas quando chegaram na América a magia ficou para trás. 

Ela sabia que aquilo era tudo lorota da sua mãe, sabia que não podia voar. Encrenca era escrava e não iria para lugar algum. Aprendeu desde cedo os pecados dos escravos: roubar, desobedecer, preguiça, barulho... Mas ela era rebelde e sofria com os castigos todas as vezes que desobedecia alguma ordem. 

Sarah tentou libertar Encrenca de várias formas, todas negadas pela família. Para melhorar a situação da amiga/escrava, ela a ensinou a ler e escrever. 




CONSTRUÇÃO DA TRAMA

Os capítulos são alternados entre Sarah e Encrenca. Assim, acompanhamos o amadurecimento das duas mulheres em ordem cronológica. É interessante ter a visão de Sarah - representando a elite e os abolicionistas -, e Encrenca - que mostra a exploração dos escravos e a luta pela liberdade. 

Sarah, quando adulta, também defenderá os direitos das mulheres tornando-se umas das primeiras feministas americanas. 
A autora constrói a trama de forma inteligente e emocionante. A obra possui riqueza de detalhes e personagens apaixonantes como, por exemplo, Angelina Grimké - irmã mais nova de Sarah que possui o mesmo discurso sobre a abolição. Juntas, elas lutam pela igualdade dos sexos. 

A invenção das Asas mescla ficção com fatos reais, porém a autora, ao final do livro, nos oferece uma nota com todo o processo de pesquisa que durou cerca de dois anos. 

O romance foi incluído ao clube de leitura da apresentadora Oprah Winfrey, e terá uma adaptação cinematográfica pela Harpo Filmes

PARA SABER MAIS...


- trecho em PDF AQUI 
- matéria na Folha de São Paulo: Livro faz retrato de racismo no século 19
 - preço do livro R$ 29,90 | E-Book R$ 19,90

-  Editora Paralela, 324 páginas. São Paulo, 2014.



Ficou interessada no livro? O que você anda lendo? 


Beijos,
Bruna

6 comentários

  1. Oi Bruna, gostei muito da indicação! O livro tem uma temática forte e parece ser super emocionante. Gostei!

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    1. Muito poh. Fiquei apaixonada pelas meninas.

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  2. Esse tipo de história me deixa muito bolada e com raiva :c o livro parece ser realmente muito bom e vai entrar na lista é claro.
    E eu não ando lendo muita coisa, sem tempo para dormir até :/ No máximo meus mangás na volta para casa depois da olha a noite >.>

    bjs, Carol | Espilotríssimo
    www.carolespilotro.com

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    1. Dá raiva sim, no começo principalmente. Mas depois você vai se surpreender. Acaba de uma forma interessante.

      Bjs

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  3. Parace ser incrível. E essa capa? maravilhosa! Amei a resenha, bjs "Bru"
    www.tobemzen.com

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    1. Confesso que parte da inspiração para o nome do blog foi por causa da capa desse livro

      <3

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