11.5.15

O Vendedor de passados


Imagine a possibilidade de mudar o passado. O que você mudaria?

A primeira coisa que pensei foi na época de escola, ensino médio especificamente, quando me apaixonei por um rapaz da minha sala. Ele era nerd, estranho, andava se apoiando mais no peito do pé, quase saltando, pequeno, magro, usava o cabelo partido de lado e, fora da escola, sempre estava engomadinho. Sim, ele era estranho.

Na época eu fazia natação e meus amigos eram, na maioria, do sexo masculino. Nunca me interessei por nenhum deles. Relacionamento de escola não dar certo. Quando acaba, por exemplo, você é obrigado a olhar a cara daquela pessoa todos os dias. Enfim...

Mas me interessei por esse carinha, o estranho, e investi na relação. Para encurtar a história, a gente namorou por seis meses. Foi legal, mas um belo dia ele terminou comigo porque sua autoestima era uma merda e ele acreditava na possibilidade de traição da minha parte. Me F*%$# hahahaha.

Chorei por meses. Nunca tinha ficado tão mal. Hoje, vejo que o sofrimento foi mais pelo fato de ter sido rejeitada. (Pare por um momento. Vamos refletir sobre esse desejo esquisito que a gente sente pelas coisas/pessoas que nos rejeitam). Rejeição é complicadíssimo. Principalmente para pessoas quem não sabem lidar com isso. Essa foi a minha primeira experiência com ela.

O terceiro ano do ensino médio, foi um ano de c*. Odeie, odiei, odiei com todas as minhas forças. Não mudei de escola, ainda gostava do dito cujo e o bonitinho ficava desfilando na minha frente o tempo todo. Para evitar repetição, minha mãe fez um acordo com a coordenação para que eu fosse apenas nos dias de provas. Fiquei estudando em casa.

O ensino médio acabou (VIVA!). Quatro anos depois recebo uma ligação. Alô? É, Bruna? Sim. Oi, é fulano (não vou colocar o nome do boy aqui, né?). KKKK. (Rindo alto lembrando da cena). O bonitinho, ligou para me perguntar se eu realmente tinha traído ele na época da escola (não). O motivo dele? Não tinha superado e se achava um merda por isso. O que pensei? Filho da p.  eu sofri feito uma besta, tudo poderia ter  resolvido com uma conversa. Resultado: perdeu a moral. Antes, até tinha porque, ora, ele me deu o fora hahahaha. Tudo bem, eu nem pensava mais nisso.

Eu mudaria isso do meu passado. Por conta desse drama de adolescência (leve em consideração que, quando jovens demais, enxergamos tudo de forma exagerada), eu perdi momentos maravilhosos. Conversando com uma amiga e lembrando dessa época, ela me mostrou algumas fotos do terceiro ano. Me questionei, "porque não apareço numa dessas fotos?", lembrei que eu estava ocupada demais chorando, triste e sozinha nos cantos, ou nem ia para a escola.



O filme


Porque contei isso? Recentemente, assisti no CinePE “O Vendedor de passados”, onde Vicente (Lázaro Ramos) trabalha corrigindo o passado das pessoas. Não que ele possua uma máquina do tempo, o filme aborda esse assunto de forma possível: através de editores de imagens (Photoshop) e vídeos, ele produz documentos como álbuns de nascimento, de casamento, produz falsos vídeos sobre belas amizades e viagens inesquecíveis que seus clientes nunca tiveram. Porque não adianta contar uma mentira, você precisa mostrar provas para autenticar sua história.



O filme faz uma crítica a infelicidade humana e sua necessidade de sobrepor a representação à essência. Um dos clientes de Vicente é um ex-gordo, que nunca teve experiência com mulher alguma. Ele pede para ter um passado feliz com direito a casamento, ex-mulher, riqueza e viagens para lugares legais. O cliente acredita que possuindo essas coisas (ou pelo menos afirmando que possuiu), ele terá oportunidade de ter uma namorada. Numa das conversas com Vicente, o cliente pergunta "Depois que estiver pronto, em quanto tempo conseguirei uma mulher?"

O filme é baseado num livro do angolano José Eduardo Agualusa, onde o personagem principal traça árvores genealógicas em troco de dinheiro. Ainda não li, encontrei em pdf e fiquei muito interessada. Não por causa do filme, que particularmente, achei sem profundidade. O vendedor de passado, busca conhecer o próprio passado, pois foi adotado e não conhece a sua origem. Começou a carreira inventando histórias para si. Ele se interessa pela personagem de Aline Mores, do qual ninguém sabe quem é, de onde veio e nem seu nome. Não vou entrar nessa questão.

Achei estranho o fato desses passados não serem questionados.  Os clientes não tem família? Amigos? Pessoas que estranhem um álbum de um casamento que nunca aconteceu? O que as pessoas realmente fazem com estes falsos álbuns de fotos?

As pessoas que procuram o trabalho de Vicente precisariam nunca terem saído de casa. Ou se mudaram para um lugar onde ninguém as conhecesse. A questão é que, como o passado é feito com tecnologia atual, também temos redes sociais onde todo mundo encontra todo mundo. Eaê, como fica?

O filme é legal, mas falta responder muitas questões. De todo modo, gostaria que essa profissão existisse e funcionasse comigo. Pediria para ser inserida nas fotos do final do ensino médio, nas festas da escola, nos jogos... Sempre feliz, claro. Aproveitando ao máximo os meus amigos e as brincadeiras em sala de aula que nunca mais voltaram.




Lançamento: 21 de maio de 2015
Direção: Lula Buarque de Hollanda
Gênero: Drama
Nacionalidade: Brasil
★★★




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