21.5.15

Fim, de Fernanda Torres

   "Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito d. Manuel I e sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me serve as ondas do mar de Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos. A queda é a maior ameaça para o idoso. "Idoso", palavra odienta. Pior, só "terceira idade". A queda separa a velhice da senilidade extrema."
(Fim, Fernanda Torres, pág 13)
 

Foi por acaso que comecei a ler Fim, e não sabia do que se tratava. O livro estava no criado-mudo da minha sogra e tive interesse por ser da Fernanda Torres. Pensei "é óbvio que deve ser bom". Poderia ter dado errado; felizmente deu certo. 

Esse trecho que coloquei a cima é de Álvaro. Velho ranzinza, vive sozinho e enfrenta todos esses obstáculos descritos por ele, para ir ao médico. Considerado o broxa no grupo de amigos, chifrado pela esposa, não gostava de ninguém, exceto do Neto, do Ciro, do Sílvio e do Ribeiro. O livro é sobre eles.

Neto, o certinho da turma, fez de tudo para não sofrer críticas ou racismo por ser mulato. Não adiantou. Ciro, o Don Juan invejado por todos, foi o primeiro a morrer, destruído pelo câncer.  Ribeiro, praieiro e saradão, fez do Viagra a sua fonte da juventude. E Sílvio, Ah! o Sílvio... Velho escroto, que nem mesmo na velhice largou os excessos de droga e sexo. Cariocas, viveram o desbunde dos anos 60 e 70. Cinco personagens totalmente diferentes. Algo, porém, une uns a outros. Mas não tenho certeza se é a amizade.

Poucas coisas são mais perigosas, no mundo da literatura, do que narrações embaralhadas. Algumas experiências negativas tornaram, para mim, os personagens superficiais. No entanto, Fernanda Torres mesmo sendo nova nesse mercado, apresenta ousada habilidade narrativa. Os homens, estão na primeira pessoa; as mulheres e outros envolvidos de alguma forma com os personagens principais, estão na terceira. Apesar disso, não houve confusão na hora de acompanhar a trama.

Em bom português, absorvemos de forma profunda os dramas, tristezas, paixões, humor e a mesquinhez de cada personagem.

A verdade é que tais sentimentos são, quase sempre, difíceis de transmitir na palavra escrita. Mas eu sofri com Ruth, o fim do seu casamento com Ciro. Ela que era a mulher mais desejada, até mesmo pelo Ribeiro, amigo de Ciro. Senti na pele a dor de ser enganada, traída e tratada feito louca, por alguém que, até uma certa manhã, durante dez anos de casamento, demonstrava devoção por ela. Como Ribeiro disse "O Ciro não deixou nem o bagaço da Ruth".

Sofri com a morte de Neto. Mas a dele do que a dos outros. Para os que leram, calculo que ninguém se importou com a morte do Silvio, mas deu boas risadas com suas esbórnias. Não se preocupe leitor: não vou contar aqui todos os momentos que fiquei com o coração na mão.

E é claro, não faltou humor. Não qualquer humor, pois se trata da velhice, morte e sentimentos corrosivos. O humor aqui é inteligente. Há passagens no livro que reflete as comédias cotidianas que tornam a vida mais leve. O Viagra, por exemplo, foi descrito como algo "tão revolucionário quanto a pílula, mas ninguém tem coragem de dizer isso". "É a libertação!". E que o "casamento é o estado civil mais indicado para homens que, como o Álvaro, não gosta de conviver com os outros", pois "nada é mais exaustivo do que administrar encontros e expectativas".

Gostei do livro. Sou muito suspeita para falar sobre esse estilo de escrita porque sou apaixonada por Nelson Rodrigues e Charles Bukowski. Não que eu esteja comparando. Não há comparação. Mas gosto de livros que tenham personagens com caráter obsceno. E da escrita com estilo totalmente coloquial. Descrição de porres, inventário de frustrações, relacionamentos conturbados, erotismo realista, críticas a sociedade e suas instituições, sobretudo o casamento, são temas que sempre me agradam. 


Para saber mais:
Leia um trecho em PDF de Fim, de Fernanda Torres


"Fim"
Autor: Fernanda Torres
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 203
Preço: R$ 34,50
Classificação:





2 comentários

  1. Oxe, eu já tinha visto esse livro tantas vezes na livraria e nunca tinha associado à atriz! o.O
    Gostei muito do jeito que você escreveu essa resenha, me deixou com muita vontade de ler o livro. Eu gosto de personagens obscenos, apesar de não ter lido tantos livros com personagens assim. Também nunca li nada do Bukowski, apesar de ter Misto-Quente aqui em casa acumulando poeira...
    Sobre narrações embaralhadas, você já leu algum do Saramago? Ele é um dos meus escritores favoritos, mas meus amigos não têm muita paciência pra ler porque acham muito confuso... ;__;
    E só pra terminar, eu *detesto* calçadas com essas pedras irregulares, aqui no prédio onde moro era assim e eu já levei belos tombos, argh! Devia ser tudo lisinho, pensando na acessibilidade para todos...

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    Respostas
    1. Você tem Misto-Quente em casa e não leu? COMO ASSIM, BIAL? Leia imediatamente. Ele é praticamente uma autobiografia de Bukowski. MARAVILHOSO. Alguém que nunca leu nada sobre o autor, precisa começar por esse livro. <3 Engraçado, já li autores que se inspiraram em Saramago, mas nada realmente dele, sabe? Vou colocar na minha lista.

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